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International: Brazil


Leiteria em Brasil

Imagine se cada pequeno fazendeiro que produz diariamente cerca de 30 litros de leite fosse exigido a atingir a meta de 700 litros diários para atender à demanda das grandes indústrias. Seria praticamente impossível. Aumentar a produção e oferecer preços mais baixos no mercado significa implantar novas tecnologias. Caso contrário, este pequeno produtor deixa de existir.

Na verdade, o aumento drástico na produção do leite se tornou padrão nos Estados Unidos. Em 1950, a fabricação de leite anual, por vaca, atingia cerca de 2.409 litros.  Hoje, são mais de 8.181 litros. Esta situação pode ser explicada em parte pela alimentação do animal, modificações hormonais e genéticas e também pelo processo industrial que confina milhões de bichos lado a lado, um método que transgredi as leis da natureza.

O Brasil já parece ter começado a se inspirar no modelo americano. Dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) revelam que a produção de leite mundial está estimada em torno de 518.6 bilhões de litros. Em 2004, 70% deste volume foi fabricado pela Europa e pelos Estados Unidos. No entanto, a tendência é esse quadro mudar. A Embrapa afirma que a fabricação de leite no Primeiro Mundo irá diminuir e, conseqüentemente, aumentar nos países em desenvolvimento. Nos últimos 25 anos, a indústria do leite cresceu no Brasil. Em 1979, passou de 10.2 bilhões de litros para cerca de 22.3 bilhões, em 2003. No ano de 2005, alcançou 22.9 bilhões de litros de leite.  Sem a implementação de tecnologias industriais, estes números provavelmente não seriam possíveis.

Este novo cenário representa uma transformação na indústria de leite em todo o país. De acordo com a cartilha A natureza do agronegócio no Brasil, divulgado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST – www.mst.org.br), no passado, o modelo integrava o maior número de pequenos agricultores como uma forma de aumentar a produção de leite. Porém, atualmente, as empresas selecionam os maiores fabricantes, com mais capital, que oferecem preços mais baixos. Com certeza, são estes os que adotaram técnicas industriais. Desta forma, milhares de pequenos produtores são forçados a abandonar a sua fonte de renda e buscar outra alternativa de sobrevivência.

Ao mesmo tempo em que os pequenos agricultores saem de cena, muitas companhias transnacionais de alimentação se estabelecem no país. São verdadeiras indústrias e nada se parecem com uma harmoniosa fazenda de produção de gado e leite. Criam animais como se fossem matérias-primas, usando métodos artificiais para facilitar a engorda. Estas técnicas são prejudiciais aos seres vivos e ao meio ambiente. Enclausurados lado a lado, estes bichos são impossibilitados de viver de uma forma saudável, passando por diversas doenças e stress, o que não beneficia nem um pouco o consumidor, mas, sim, as corporações.

Ecossistemas, sociedades e economias de vários países no mundo já estão sofrendo as conseqüências da industrialização: doença da vaca-louca, metais pesados nos peixes e a gripe das aves. Dados das Nações Unidas relatam que a gripe do frango, por exemplo, tem como suas causas ecológicas a prática da agricultura não-sustentável. A implicação ambiental está intimamente ligada às questões de segurança na produção alimentar, infelizmente, cada vez mais industrializada e à base de químicos. Mortimer B. Zuckerman, no seu artigo “O Pesadelo - H5N1 pandemia”, adverte o que uma pandemia poderia causar:

“... peritos na área internacional de saúde avisam que a gripe das aves pode se tornar uma pandemia global, infectando mais que o quarto da população mundial e matando cerca de 180 milhões a 360 milhões de pessoas – pelo menos sete vezes mais que o número de mortes causado pela Aids, somente em algumas semanas”,

- New York Daily News, 20 Junho de 2005.

Um desastre como este na área da saúde representaria um grande impacto na economia de muitos países. No artigo “O impacto da gripe da ave na indústria do frango”, de Silviu Dochia, publicado pela Reuters, mostra que a produção de carne aviária na França, a maior da Europa, perde 40 milhões de euros por mês. A Alemanha perdeu mais de 140 milhões de euros mensais desde agosto do ano passado. Segundo a Organização Mundial de Saúde, o Vietnã já matou 46 milhões de patos e frangos numa campanha que já custou mais de 120 milhões de dólares. No entanto, a maior perda foi no interior do país, onde as comunidades mais necessitadas já começaram a procurar outras formas de sustento.

A vaca-louca e a gripe das aves ainda não chegaram ao Brasil. Mas os métodos industriais das companhias transnacionais já estão aqui. É uma grande ameaça: poluição ambiental, produção de alimentos não-saudáveis. Ou seja, o lucro acima de tudo, até mesmo da saúde.

Está nas mãos dos consumidores tentar resolver estes problemas. Basta aprender mais sobre os impactos da agricultura industrial e se conscientizar também sobre as alternativas para lutar contra este sistema. Escolhendo alimentos orgânicos ou aqueles produzidos de forma sustentável, estamos contribuindo para que os pequenos produtores não desapareçam, além de preservar o meio ambiente e favorecer a nossa própria saúde. Com o maior número de pessoas apoiando a agricultura sustentável, o acesso a alimentos mais saudáveis será mais fácil a todos.
 
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